Publicado no Jornal Incentivo de 12 de Fevereiro de 2026
Ao longo dos anos consolidou-se, no discurso político regional, a ideia das chamadas ilhas “capitalinas”: São Miguel, Terceira e Faial. Não se trata de um estatuto formal, mas de uma construção política usada para justificar centralidades e opções estratégicas. No caso do Faial, essa designação é frequentemente evocada, não por ser capital, mas por acolher a Assembleia Legislativa e vários departamentos do Governo Regional. Contudo, quando se passa do discurso à prática, essa narrativa desfaz-se.
Se existisse, de facto, um estatuto funcional associado a esta alegada tripolaridade, ele deveria traduzir-se em maior proximidade política, diálogo institucional regular e igualdade de tratamento. O que sucede é precisamente o contrário. Enquanto o Governo Regional mantém reuniões regulares com os Conselhos de Ilha das restantes ilhas, incluindo São Miguel e Terceira, o Faial continua sistematicamente ignorado nesse diálogo. Esta diferença de tratamento é politicamente injustificável e revela uma opção consciente.

Quando o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, afirma desconhecer pedidos de reunião do Conselho de Ilha do Faial, essa posição colide com declarações públicas reiteradas da sua presidente e com anos de crítica expressa em artigos de opinião. Mais do que um problema de formalismos, trata-se de responsabilidade política. O Governo não precisa de convite para ouvir e visitar uma ilha, um território que administra. O Faial não é apenas o troço de estrada entre o aeroporto e a Assembleia Regional.
Importa esclarecer, com a devida serenidade, que ninguém ignora as obras atualmente em curso, a larga maioria delas financiadas ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que termina no próximo mês de junho. Contudo, a execução do PRR não constitui um gesto de benevolência política para com o Faial, trata-se de uma obrigação institucional, financiada por recursos públicos e, portanto, devida às populações. Mais ainda, o que seria verdadeiramente expectável e exigível seria a sua execução integral, algo que, manifestamente, não aconteceu.
Importa não confundir investimento com equidade. Obras e betão, por mais visíveis e quantificáveis que sejam, não substituem o diálogo institucional nem apagam desigualdades persistentes no tratamento. Infraestruturas erguem-se com cimento, equipamentos adquirem-se com dotação orçamental, mas a confiança, essa, constrói-se com escuta, respeito e coerência nas decisões.
O Faial não reclama privilégios nem exige tratamento preferencial. Reivindica apenas o que é elementar numa Região que se diz coesa e solidária: igualdade de consideração, igualdade de prioridade e igualdade de compromisso. Nada além disso. Nada aquém disso. Apenas o mesmo.

As assimetrias tornam-se evidentes nas infraestruturas estratégicas. A comparação investimentos e de estratégia entre o Porto da Horta e os portos de Ponta Delgada e da Praia da Vitória é inevitável. Todos têm consciência de que o molhe norte foi uma má opção. Mas essa consciência não pode justificar uma inércia total. Continuar décadas a olhar para o mesmo problema, sem soluções alternativas, sem objetivos estratégicos, sem planeamento faseado e sem assegurar sequer a manutenção adequada, é um sinal de total abandono político. A culpa sucessivamente atribuída ao passado entretém politicamente, até pode convencer os mais partidariamente ativos, mas não resolve o presente, muito menos o futuro.
O mesmo se aplica à mobilidade aérea para o Faial. A desigualdade nas ligações mantém-se e, em cinco anos, nunca se ouviu o presidente do Governo assumir esta matéria como prioridade política. O que era exigido com firmeza a Vasco Cordeiro deixou de o ser. O que mudou? Têm hoje os faialenses mais e melhor mobilidade? A resposta é clara: não.
No aeroporto, fala-se naturalmente da ampliação da pista. As respostas existem, mas são vagas, cuidadosamente construídas para deixar tudo implícito sem assumir compromissos claros. Diferem na forma, mas coincidem no resultado, cinco anos depois, nada de estrutural foi feito. O contraste é gritante quando se olha para o aeroporto do Pico, para o das Lajes da Terceira ou para o de Ponta Delgada, onde o empenho político e o arrojo governativo são evidentes. No Faial, esse empenho nunca se materializou. E coloca-se uma pergunta legítima: onde estão hoje os dirigentes do PSD e do CDS-PP do Faial que, em 2019 e nos anos anteriores, não deixavam passar um dia sem críticas políticas quando o tema era a pista do aeroporto? O silêncio atual é tão revelador quanto o imobilismo.
A situação das estradas regionais, em particular do troço entre o aeroporto e a cidade da Horta, constitui mais um exemplo eloquente de uma negligência que já não pode ser atribuída ao acaso nem à mera contingência. Trata-se de uma via que, fragilizada desde as intervenções realizadas após o sismo, acumula agora mais cinco anos de progressiva degradação, sem que se vislumbre qualquer intervenção estrutural digna desse nome.

Não terá sido esta uma promessa eleitoral? Ou estará a promessa, como o piso, sujeita a abatimentos sucessivos? Há, nos Açores, alguma estrada principal de acesso a uma cidade que apresente semelhante estado? Falamos da primeira impressão de quem chega à nossa ilha e de uma via absolutamente essencial para quem aqui vive, trabalha e circula diariamente. Não é um detalhe periférico, é um cartão de visita e uma artéria vital. Resta saber se as viaturas oficiais conseguem atenuar a realidade do pavimento ou se, pelo contrário, tornam ainda mais evidente que esta deveria ser uma prioridade inadiável e uma das primeiras preocupações do Governo Regional. Afinal, mesmo o mais requintado amortecedor tem limites e a paciência dos faialenses também deveria ter.
Os faialenses já se pronunciaram democraticamente. Deram sucessivos votos de confiança ao PSD e à Coligação que nos governa. O balanço, porém, é difícil de ignorar: menos diálogo, menos ambição estratégica, menos atenção política à nossa ilha e, sobretudo, a perceção generalizada e crescente de que o Faial vai perdendo espaço nas diversas áreas todos os dias. O problema já não é partidário, é de coerência, justiça territorial e respeito institucional.
O Faial não pede privilégios. Exige apenas igualdade de tratamento. Tudo o resto é retórica.
























